aurora tardia
opaca de risos
cortar o grito
das pedras
um relógio permanece
no mesmo instante:
a mancha de Picasso
ilumina
as raízes
submerge
cometas
fragmentos
de azul
calam
o vento chumbo
aurora serpente
cava janelas
no horizonte
Amarrar najas na claridade das entranhas e macerar as alcovas tardias num pote de manhãs O corpo das terras amargas pende no Sol feito andorinha de cristal Amarrar najas em sopas de quimeras pensa o albatroz de estrelas ao beijar o sexo de uma orca translúcida A sombra esmeralda esquece as línguas na praça da sé.
uma flor de mandrágoras
vestida de terras azuis
enlaça o espaço das gavetas
e baila
nas linhas
de uma ode
beija o céu
vozes
rompem os olhos
uma flor de mandrágoras
claridade negra
persiste
inquieta solidão de acasos
cindir o espaço
do verso
rocha
que brota
de um vulcão
de colibris
a boca
borboleta de marfim
pousa
quietamente
num sol
de acarás bandeiras
aberto
no silêncio
das noites
Entardecer de velha cepa cai sobre a cidade esgarçada por rios imundos. As vozes amedrontadas das varandas buscam horizontes amarelos enquanto as quimeras dançam como tempestades de colibris mortos. A dor, estranha companheira, veste-se de sorrisos e passeia, solene, nas avenidas de abutres abertas no crepúsculo. Os anjos tortos e caídos dançam com as travestis, os demônios celebram os salvadores, as baratas de nuvens percorrem as casas das famílias respeitáveis e ilibadas. Os olhos surdos são perfurados por luzes e um caleidoscópio de intrigas revela imagens no fundo das taças de vinho…
Entardecer de estranhas mães carregando sonhos envelhecidos onde a fumaça de um cigarro desenha víboras que devoram certezas amanhecidas, como um mendigo à arrastar-se pelos becos e beiras numa noite de chuva. Esta dor resvala em cantos negros, de onde brotam insanas palavras vestidas de dúvidas…
Entardecer nas ruas cinzentas da solidão, quando os pássaros voam cingindo os azuis e se abrem qual livros de melancolia, como um poema de silêncios e lágrimas, quando todas as bestas do apocalipse dançam com os arautos do senhores e matam as nascentes…